O reconhecimento da cultura como atividade econômica é muito recente. Até o final do século 20 a tratávamos apenas como patrimônio simbólico. Tanto nos estudos antropológicos quanto nos sociológicos, aprendemos a enxergá-la como coisa dada, o que está impresso em nossos códigos de convivência e consolidamos como civilização.
Seu potencial transformador ainda não consta nos anais da Unesco, que define cultura como "conjunto de características distintas espirituais, materiais, intelectuais e afetivas que caracterizam uma sociedade ou um grupo social. Abarca, além das artes e das letras, os modos de vida, os sistemas de valores, as tradições e as crenças" (Mondiacult – México 1982). Ali está ela, apenas como patrimônio, conquista da humanidade.
Arrisco-me a explorar uma outra dimensão que a cultura pode assumir a partir de uma visão mais ampla e contemporânea deste conceito. Refiro-me às dinâmicas de sociabilidade, às tecnologias de convivência, ao diálogo, às conversações e redes. Sistemas de intercâmbio e inter-relação reforçados pelo surgimento das novas tecnologias, mas não exclusivos aos territórios virtuais.
Imaginar e expressar o futuro. Pensar cultura como um farol voltado pra frente, para as novas formas de expressão e convivência que podemos construir a partir do conhecimento disponível. A ética como princípio norteador.
A idéia de cultura, cunhada conforme as visões políticas de cada tempo, detém em si as chaves dos sistemas de poder. Chaves que podem abrir portas para a liberdade, para a eqüidade, para o diálogo. Mas que também podem fechá-las, cedendo ao controle, à discriminação, à intolerância. Pensar a função política da cultura no mundo contemporâneo significa revisar os parâmetros das relações sociais e econômicas que fomos capazes de construir.
Quero fazer uma provocação. A consolidação da economia como ciência dominante em nosso tempo fez com que lhe subordinássemos todas as outras formas de manifestação humana como fenômenos derivativos, seguindo uma lógica e uma codificação próprias. E com a cultura não foi diferente.
E daí vem a tentação de transformar ricas manifestações culturais em commodities baratos, manuseadas de maneira rasteira e linear por profissionais reprodutores de um conjunto de regras e tecnologias que só interessam à manutenção de um perverso sistema de poder, que se sustenta sobretudo pelo domínio dos meios de produção e distribuição de conteúdos culturais.
Mas o que é a economia senão um fenômeno cultural? O que são o dinheiro, o market share, a pontuação da bolsa de valores, senão valores simbólicos desprovidos de sentido fora de um conjunto de códigos rigorosos chamado “mercado”. Mergulhados nesse contexto, corremos o risco de perder a capacidade de desvendá-los e tornamo-nos apenas agentes de manutenção e disseminação de um sistema de valores linear, unilateral e, por que não, desumano.
Nessa condição, o consumo consolida-se como a forma de expressão mais forte e presente, sobretudo nos grandes centros urbanos. A própria arte passa a ser re-significada e vista como meio de produção e objeto de consumo. Corre, assim, o risco de perder a condição e a capacidade de revelar e traduzir a alma humana, suas contradições e riscos. De sua condição única e insubstituível de dar forma à utopia, passa a mera reprodutora de um sistema que o incapacita para o exercício desse olhar mais agudo e sensível.
O Brasil vivenciou na última década um grande salto quantitativo e qualitativo nas relações de trabalho na área cultural. Cultura, como atividade econômica, saiu do confinamento, ultrapassou fronteiras, mas ainda mantém vícios e dependências de uma atividade ligada aos poderes político e econômico.
O país entrou de forma definitiva no cardápio do entretenimento global. Um dos principais mercados das chamadas majors do cinema e da indústria fonográfica, o país vivencia a efervescência de uma nova Broadway tupiniquim, que já demonstra sinais de vitalidade. Do ponto de vista da exportação das artes e da cultura local, o momento atual nunca foi tão profícuo. Desde Paulo Coelho, um dos autores mais lidos da atualidade, até o futebol e a música, o Brasil nunca esteve tão em voga no cenário global. O gestor cultural precisa estar atendo para valer-se dessas oportunidades.
Participar ativamente do mercado da cultura sem estar a ele subordinado é uma das questões éticas mais difíceis ligadas ao cotidiano do gestor cultural. Por isso a necessidade de investir em um conjunto de ferramentas adequadas para lidar com a administração e o marketing, por exemplo, mas não sem fazer uma incursão mais profunda na questão ética.
Não há nada que influencie mais a conformação de um produto cultural do que o seu sistema de financiamento. Presume-se, por exemplo, que um filme distribuído por uma major norte-americana teve menos liberdade artística do que um filme independente. Este, por sua vez, terá mais dificuldades de conquistar público, justamente porque as salas comerciais pertencem às grandes distribuidoras. Um bom gestor cultural precisa saber manejar essas variáveis, que são inúmeras e complexas, a ponto de arquitetar novas dinâmicas que invertam a lógica do domínio e o aprisionamento da criação pelo capital.
No livro “Diversidade Cultural - globalização e culturas locais: dimensões, efeitos e perspectivas”, lançado pela editora Escrituras em parceria com o Instituto Pensarte, em 2005, trouxe um pouco dessa inquietação em relação à condução da minha própria condição profissional:
“Senti na pele a inversão da lógica da troca dos conhecimentos. Trazia um conhecimento do sul, inadvertidamente empacotado para atender aos interesses da indústria cultural dominante. Vinha com técnicas de marketing e gestão aplicadas à cultura. Um arsenal tecnológico inútil para quem faz cultura por pertencimento e não por exercício mercadológico.
Ao dissipar essa perversa miríade pelos quatro cantos, fui conhecendo essa gente, acumulando experiências e contatos que me fizeram inverter providencialmente a ordem das coisas. Em vez de armá-los com as mais avançadas técnicas de gestão cultural, passei a apresentar-lhes como armas do inimigo. Não para serem aplicadas tal qual se apresentam, mas para fazerem do veneno o antídoto.
Acima de tudo, o que aprendi com essa gente toda que faz cultura pelo Brasil é que existe algo a ser visto com o nosso próprio olhar, nossa lente de ver o mundo. O domínio global do sudeste já massacrou demais as culturas do norte e do sul e porque não dizer do próprio sudeste, a ponto de tirar sua auto-estima e sua capacidade de ser diverso e plural.
Até então diversidade cultural, essa expressão mágica a que tudo se aplica e justifica, era tão somente a capacidade de expressão de um povo e sua vasta riqueza plural e difusa. Ainda não existia para mim o vasto mundo das relações internacionais, os mais rigorosos sistemas de controle sobre conteúdos e propriedade sobre empresas de comunicação e conteúdos culturais, até os mais abertos, liberais e kamikazes programas de diálogo e comércio de bens simbólicos.
Nesse momento já havia descoberto que era esta a grande vocação do Brasil e que seria por meio não somente dela, cultura, mas também da percepção que poderíamos fazer dela, que o país se tornaria viável.
O desafio é valorizar o que somos segundo nosso próprio referencial. Ter a convicção de onde podemos chegar conforme nossos próprios valores. Ter consciência de que o mapa é antes uma visão autoritária do cartógrafo. Digo isso sem resquício xenófobo, apenas como parte da contribuição que o Brasil, a China e a Índia, entre outros, podem dar ao mundo.
Podemos inventariar e transformar em produto o que a dinâmica cultural produz, mas nunca uma cultura. É fundamental termos isso debatido, para não corrermos o risco de reduzir o entendimento do tema. Muitas vozes no mundo tratam diversidade cultural apenas como um elemento de troca comercial, ou seja, dos produtos e serviços de valor simbólico produzidos por determinada cultura, sem enxergar sua própria essência e os efeitos destes sobre as culturas envolvidas, sobretudo as mais fragilizadas economicamente.
Negar o produto também não é o caminho. Só não podemos reduzir cultura a isto. Seria como negar a complexidade da nossa existência, afirmar que tudo o que somos pode ser trocado por moeda. Nossas idéias, ideais, utopias podem servir de troco. O que observamos é que, de uma forma ou de outra, é isso que os organismos internacionais fazem, impulsionados sempre por interesses econômicos dos países desenvolvidos que abrigam a questão.”
Por tudo isso, atuar na atividade cultural é algo que exige conhecimento genérico e específico, ao mesmo tempo. Saber balancear uma formação humanística ampla e consistente, capaz de apreender e decodificar nuanças, especificidades e contextos, necessários para compreender melhor a teia de relações e interesses onde está inserido, em especial os políticos e econômicos, com o conhecimento técnico, que o habilite e dialogar com todas as instâncias da sociedade.
Sobre o desafio da formação
No final de 2006 fiz uma sondagem informal com um grupo de 25 profissionais de gestão cultural que de alguma forma estavam ligados à atuação da Brant Associados, com vistas ao desenvolvimento de um curso de formação para gestores.
Selecionei abaixo trechos das respostas de alguns desses profissionais, que nos sugerem um olhar sobre o processo de formação:
>> A sua opção por atuar na área cultural foi despertada, de alguma forma, durante o seu processo de formação acadêmica?
“Foi durante a faculdade de Comunicação que pensei pela primeira vez em trabalhar efetivamente nessa área” – GESTORA CULTURAL
“Sim, optei por estudar Relações Internacionais e um dos conteúdos que mais me interessavam era Políticas Culturais Internacionais” – SÓCIA DE EMPRESA DE GESTÃO CULTURAL
“O interesse pela atividade veio de uma identificação antiga e afetiva com as manifestações culturais e as artes. Ainda assim, de alguma forma, o fato de ter trabalhado em uma agência de publicidade com valores com os quais eu não me sentia confortável muitas vezes, sem dúvida me motivou a procurar uma outra área onde eu pudesse encontrar um caminho mais próximo da minha verdade.” – EMPREENDEDOR CULTURAL
>> Você considera necessária uma formação específica em gestão cultural?
“Sim, ou pelo menos uma formação complementar que consiga alinhavar o conhecimento das diversas áreas que integram o processo da gestão cultural.” – GESTORA
“Se falar em formação específica pressupõe um modelo de aprendizado e de determinados conteúdos estabelecidos, creio que não. Entretanto, acho fundamental a absorção de três tipos de habilidades: o conhecimento provindo da prática, da experiência com diversos tipos de projetos; a capacidade reflexiva que proporciona o entendimento amplo do que é cultura...” – EMPREENDEDOR
“Sim, há anos procuro curso de especialização na área, mas nunca encontrei nada realmente interessante no Brasil, apenas na França, Espanha e Buenos Aires.” - EMPREENDEDORA
>> Em sua opinião, qual a principal deficiência de formação que os gestores culturais encontram atualmente?
“Acho que faltam nos cursos conteúdos com uma vertente mais sociológica, não somente mercadológica. Ou melhor ainda, cursos de formação que saibam equilibrar e integrar de maneira coerente teoria e prática, que é um ponto chave para se formar um gestor cultural.” - PRODUTORA
“Acho que o gestor cultural deve ser hábil como executivo, nos processos administrativos e, ao mesmo tempo, lúcido e sensível ao lidar com processos subjetivos.” – PRODUTOR
“Falta de cursos extensivos de especialização. É fundamental que os cursos estejam bem linkados com a prática e atenda dificuldades especificas que lidamos no dia a dia.” - GESTORA
>> Das dificuldades que você encontra em sua formação, qual(is) é(são) a(s) mais difícil(eis) de conseguir em programas de formação oferecidos no mercado?
“Sinto falta de programas que tratem do tema “avaliação” – seja avaliação de um processo contínuo, de público, de resultados - em um projeto cultural (seja um evento ou uma instituição) a curto, médio ou longo prazos, quantitativa e qualitativamente.” – GESTORA
“Os cursos estão ou muito voltados para instrumentalização (cursos de ferramentas) que não me parecem agregar ao conhecimento.” – EMPREENDEDORA
“Acho que a atividade de gestão deve ser aprendida, em sua grande parte, no exercício. Ou melhor, na reflexão sobre o exercício.” – GESTOR
Percebe-se, a partir dessa série de entrevistas, que a busca de um equilíbrio entre a formação teórica humanística e a práxis, pela via da tradução para o cotidiano do pensamento filosófico, e de uma visão menos fechada e pré-concebida do mundo, pode se tornar uma boa solução para o desenvolvimento profissional dos gestores culturais.
É preciso buscar meios de destrinchar conceitos ligados ao manejo da questão simbólica e apresentar cenários capazes de representar realidades complexas e diversas, em detrimento das cartilhas de formação técnica e linear.
São premissas para a formação deste profissional: compreender as contradições do nosso processo civilizatório e seu atual estágio; assumir a cultura como a amálgama capaz de oferecer uma visão complexa dessas contradições; além de buscar formas de construir novos sistemas sociais capazes de lidar com elas, tendo o humano como ponto de partida.
A atividade cultural exige agentes preparados e dispostos a pensar e atuar com base em novas possibilidades, mais complexas, múltiplas e coerentes com as questões colocadas pela sociedade contemporânea. Capazes de pensar uma nova agenda política para lidar com os desafios do mundo atual, articular setores governamentais, sociedade e mercado para atuarem alinhados em torno dessa agenda, além de desvendar a cultura como ponto de partida, como meio de construção dessa agenda e como eixo central dos novos paradigmas de desenvolvimento.
O segredo para sair da linearidade do mercado, talvez esteja no exercício de uma abordagem multidimensional para a atividade cultural. Ao implementar um processo de natureza cultural, o gestor deve estar apto a lidar com inúmeras vertentes que, juntas, conferem ao processo a riqueza necessária para desviar-se dessas armadilhas.
Qualquer atividade cultural, do Cirque du Soleil ao maracatu rural de Pernambuco, é parte integrante deste “conjunto distintivo de atributos materiais, espirituais e afetivos que caracterizam uma sociedade ou grupo” definido pela Unesco. Cuidar dessa dimensão é essencial para que não perca sentido dentro do próprio contexto social onde foi gerada.
Cuidar da dimensão econômica, por exemplo, já exige um outro olhar, mais voltado para os processos de produção, distribuição, troca, uso ou consumo dos bens simbólicos. Que pode ser complementado com um conjunto de instrumentos de apropriação desses bens.
Essa dimensão é complementar ao desenvolvimento artístico, à pesquisa de linguagem e à proposta estética que a atividade propõe. Que por sua vez não está desvinculada de valores éticos e morais, tampouco à sua dimensão cidadã.
É preciso, sobretudo, entender este ambiente da economia da cultura como algo em pleno processo de transformação e desenvolvimento. Um mercado promissor, mas ainda incipiente, o que exige uma intensa articulação entre os membros dessa cadeia produtiva para a conquista de um olhar mais apurado da sociedade em relação à sua importância estratégica.
Profissão cultura
A atividade cultural é composta por uma diversa e abrangente cadeia produtiva, com diversas funções e especificidades. Cada um desses agentes possui um papel distinto, complementar e fundamental na composição de um setor cultural rico e produtivo, que contribua para o desenvolvimento social e econômico do país.
Na área de produção, a cadeia inclui pesquisadores, artistas, criadores, produtores, administradores e técnicos. Em sua maioria, profissionais liberais, que têm sua própria empresa e que circulam com certa liberdade pelo mercado, mas ao mesmo tempo convivem com a insegurança do trabalho eventual.
Já as organizações culturais, passaram na última década por um processo de profissionalização surpreendente. Era raro encontramos centros culturais, fundações, organizações culturais públicas, privadas e do terceiro setor com agentes plenamente capacitados para desenvolver suas funções. Por outro lado, era raro encontrar condições favoráveis para este funcionário. Com regimes de trabalho muito informais e remuneração incompatível para o exercício de suas funções, os bons profissionais preferiam arriscar-se no mercado.
Outro campo em pleno desenvolvimento é o departamento de cultura e patrocínio das empresas investidoras. Impulsionadas pelas oportunidades geradas pelas leis de incentivo à cultura, elas criaram departamentos e contrataram profissionais para gerir políticas de cultura e de comunicação empresarial focadas no investimento cultural.
O próprio Poder Público ampliou as oportunidades de trabalho para a área da cultura. É crescente a demanda por profissionais responsáveis pela formulação e gestão de políticas culturais.
Ainda no meio acadêmico e na imprensa encontramos oportunidade de trabalho para esses profissionais, que podem atuar como críticos, curadores e pesquisadores.
Promover a transformação da sociedade por meio da cultura significa encadear esforços de todos esses agentes de forma a permitir a consolidação de um mercado qualificado, capaz de produzir e consumir cultura.
O desenvolvimento social proporcionado pela ação cultural se dá de forma espiralar, ligando todos os elementos e aumentando a base estrutural que garante a consolidação do espírito crítico da sociedade. Este processo ocorre ao mesmo tempo em que se estrutura como um mercado capaz de fornecer insumos necessários, oferecendo base sólida à sociedade e proporcionando um crescimento cíclico em progressão geométrica, com a ampliação de sua base.
* Publicada originalmente na revista do Observatório Itaú Cultural número 6, em agosto de 2008.